terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Acertando as atividades

Filme: Narradores de Javé

A proposta abaixo foi criada pensando em propor uma discussão com os professores cursistas acerca de aspectos relevantes que podem ser explorados em sala de aula.

Pontos de observação e análise:
1) Vale do Javé era uma pequena cidade interiorana como tantas outras que existem no Brasil. Embora pequena, mantém seus traços e sua história. Como os causos, contados pelos mais antigos, colaboravam para a manutenção desse traço cultural?
2) A narração sobre a história da cidade e do povo de Javé em seu início era exclusivamente oral. De que forma a narração foi tão importante para garantir o conhecimento e o não desaparecimento de Javé?
3) A localidade de Javé era composta por analfabetos, problema ainda reconhecido em nosso país. Analisar o confronto feito sobre essa situação e o destaque dado a importância do ato de ler e de escrever.
4) A prática da posse da terra por meio das “divisas cantadas”, as histórias contadas pelos moradores sobre a origem do lugar e a necessidade de se fazer o registro da história do povoado suscitam a reflexão acerca de modalidade oral x modalidade escrita da língua. A partir de elementos do filme, listar características de cada linguagem.
5) Como pode ser entendido o ditado popular “Em terra de cego, quem tem olho é rei” nas situações do filme.
6) Outro aspecto relevante a ser observado é o regionalismo presente na fala das personagens. Como se dá o confronto entre esse regionalismo e a urgência de se redigir um texto documental, no caso, um dossiê.
7) O objetivo de se fazer um registro, relato científico sobre Javé não se concretiza e a pequena cidade foi inundada. Quais fatores podem ser levantados para que o trabalho da personagem “Biá” não se concretizasse e qual conceito poderia ser formado para o termo “texto científico”?
8) O final do filme enfatiza o nome do mesmo “Narradores de Javé”. Por quê?
Lilian

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Memorial de leitura

Lembranças... memórias... Somos feitos disso.
Logo cedo as crianças são introduzidas nas letras – que sonho! – porém quando a família não é totalmente letrada, o processo atrasa.
Minha história com a leitura começou paradoxalmente cedo e tarde. Cedo, pois tive tempo de me encantar pelo cheiro de um queijo e de ser desafiada por um pequeno príncipe. Tarde, porque já estava com meus dezenove anos.
Sou de uma família humilde e pais com no máximo a 4ª série completa. Mesmo assim, sempre passaram a mim sobre a importância de estudar, não especificamente sobre a importância do ato de ler.
Anos escolares iniciais. Alfabetização. Operação tartaruga. Soletração. Silabação. Leitura sem compreensão. Falta de fluência. Ainda nesse contexto, uma prima três anos mais nova, que estudava no CA de uma escola particular, a qual tinha uma leitura fluente, além de compreender e recontar com exatidão o que lia. Minha primeira decepção. Eu, ao final da 1ª série, não lia como os outros achavam que eu deveria ler. Comparação com a minha prima. “Isso é impossível! Ela não consegue!”. Eram alguns dos comentários que eu ouvia.
Era difícil para alguém de 7 anos e pouca maturidade entender o que tudo aquilo significava. Nessa época, o meu pouco contato com a leitura dava-se por meio dos livros infantis da minha prima.
Mudança. Retorno a minha cidade natal, Santa Teresa. Passei na escola e estava na 2ª série – pelo menos eu achava!. Segunda decepção. Fui levada à turma da 1ª série da escola onde estava matriculada e solicitada a fazer a leitura de um texto para eles, “sem gaguejar”, senão voltaria para a 1ª série. Essa foi a condição.
Seria possível que eu, para ler, bastava mostrar que era fluente, que não gaguejava?! Que era capaz de unir letras, sílabas, palavras, frases, parágrafos sem obstáculos?! Mais uma vez não tinha maturidade para entender tudo aquilo. Hoje ainda sinto as consequências daquele dia, todas as vezes que tenho de ler algo diante de um público.
No entanto, acredito que em nossa vida não há acasos. Há providências divinas. As coisas acontecem para um determinado fim.
Continuei no colegial e a leitura fazia parte da obrigatoriedade do currículo escolar.
No Ensino Médio, tive contato com a Literatura, a arte da palavra. Li alguns livros, porém tudo muito relacionado com currículo. Foi nesse período que descobri uma “Senhora” chamada Aurélia, que, com sua personalidade e convicções, rompeu um paradigma social de submissão, obediência e fragilidade feminina. Revelou-se forte e decidida.
Um convite: ser professora de informática e de inglês. Novo convite. Um desafio. Aulas de Língua portuguesa. Ingressei na faculdade de Letras, inicialmente por causa do Inglês, contudo, no decorrer do curso, os desafios trazidos pelas professoras de Literatura Brasileira e Portuguesa e de Português fizeram com que o meu contato com a leitura começasse a ser diferente. Fui percebendo que era capaz de ler, compreender, refletir e mudar. Mudar de postura, de pensamento, de opinião. Foi aí que encontrei dois livros “Quem mexeu no meu queijo?”, de John Spencer e “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint-Exupéry. Não li “O pequeno príncipe” para dizer que o fiz como as candidatas ao Miss Universo, mas porque era encantada pelo desenho animado que assistia quando mais nova. Conhecer o novo. Vencer obstáculos. Voar para lugares desconhecidos. Que fascínio? Desconhecido a mim é pensar como poderia ter sido diferente o meu universo se tivesse feito incríveis viagens como o Pequeno príncipe.
Mexeram no meu queijo? Óbvio que sim. Estava na faculdade de Letras e descobri o que elas significavam. “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, mostrou-me que as frustrações e decepções existem e fazem parte da vida, só não é possível desistir de um objetivo. A diferença entre a minha e a história do protagonista do livro é que a minha história não teve um triste fim.
Hoje, tento ser uma agente de transformação revelando aos outros como que, para gostar de ler, é preciso buscar a leitura.
Percebi que sou responsável por minha própria história... por minhas memórias.
Lilian

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Memorial de leitura

Na minha casa, eu e meus irmãos sempre tivemos contato com os livros. Eles eram os nossos companheiros porque meus pais trabalhavam longa jornada na loja, comerciantes, mas as três meninas liam mais,os quatros rapazes gostavam mesmo era da bola. Tive uma excelente professora alfabetizadora, Dona Arlenice. Durante as aulas de leitura, ela preparava uma atmosfera acolhedora para nos encantar. Vestia-se com os figurinos dos personagens das histórias, levava discos infantis e nos convidava para participarmos das histórias. O lúdico estava presente na minha sala de aula, uma professora à frente do seu tempo. Eu e minha amiga Silvane resolvemos imitá-la. Decidimos criar uma escolinha onde pudéssemos teproduzir toda essa magia para as nossas bonecas. Escolinha Rosa Flor, em homenagem a minha mãe Florípedes, professora aposentada e depois comerciante. Mais tarde os nossos alunos passaram a ser nossos vizinhos pequeninos, para quem líamos a coleção dos clássicos. Minha mãe muito atenta a meu interesse pela leitura comprava novas coleções. Na casa pequena tínhamos estante, na grande, biblioteca. Assim devorava o Tesouro da Juventude, meu preferido na adolescência, Monteiro Lobato e outros. Nessa fase amigas vinham a minha casa e fazíamos tarde de leitura, com a aprovação e corujice da minha mãe, pois ela queria uma filha professora. Na Ufes fiz Letras, li muito e hoje leio as obras psicografadas por Chico Xavier, dentre as minhas preferidas estão "Há dois mil anos " e "50 anos depois".

Etelvina Matilde

Entre tantas... Histórias, Minhas Memórias.

Meu nome é Eliana


A minha história começou quando eu tinha 04 anos, com a vinda da minha avó para minha casa. Lembro que ela contava muitas histórias, entre o real e a fantasia. Ah! Esqueci de falar que ela perdeu a visão aos poucos, ela me distraia junto com uma amiga com deliciosas tardes na varanda contando histórias.


Era uma criança muito curiosa e devido ao meu aconchego com as letras já lia e com cinco anos fugi para escola com Andréia uma amiga de infância; não éramos matriculadas, mas na ingenuidade achávamos que as crianças menores já estudavam, porque a gente não? A equipe escolar nos recebeu muito bem com um olhar diferenciado. Isto me deixou três anos no primeiro ano, e fazia o dever de aula dos meus colegas, fato que anos depois aconteceu com a minha filha.
Era complicado ler na minha casa, porque meu pai acreditava que tínhamos que pilotar fogão e era proibido qualquer tipo de leitura, consegui uma lanterna e quando todas as lâmpadas se apagavam conseguia penetrar no mundo das histórias em quadrinhos. Na 5ª série quando a professora Rita pediu para comprar o livro O caso da borboleta Atíria meu pai recusou-se a comprar, mas minha mãe, ah ela era maravilhosa, comprou aquele livro e muito mais Um cadáver ouve rádio, Xisto no espaço, A serra dos dois meninos, Ubirajara, Iracema entre outros.
Na adolescência consegui ler na biblioteca da escola tantos livros que fui esquecida na escola. Li Polyana menina e Polyana moça como foi importante essa leitura!

No meu viajar dentro da leitura. Que maravilha quando começou O Sítio do Pica Pau amarelo e descobri que tinha muito mais em livro, na 5ª série conheço a professora Dilcéia uma pessoa que amei desde o 1º instante, ela lia para nós um pouco das aventuras das personagens do Monteiro Lobato, trazendo assim um pouco de luz e alegria para a minha vida.
Tudo que eu gostava era ler, uma grande alegria, inclusive romances de banca tipo Júlia, Sabrina e Bianca bem, Sidney Sheldon, Aghata Christie, Machado de Assis, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Eça de Queiroz, Cecília Meireles e as literaturas psicografadas como Violetas na Janela e outras que foi muito importante quando meu filho Renan Leandro fez a passagem desta vida para um plano superior, o que me trouxe alegria neste momento de angústia foi saber que ele hoje está num lugar livre de qualquer dor, sendo um aliado de Deus preparando um lar especial para nós, acredito que se não fosse a leitura desse livro eu talvez não tivesse superado tão tamanha dor.

Adoro ler e leio tudo é um momento ímpar quando leio um livro e consigo viajar em outro mundo, distanciando de tudo que me envolve.

Ler e contar histórias são tão importantes que fico fascinada quando uma criança chega e pede mês livros emprestado, pois já leu todos que têm na biblioteca ficando sem opção, empresto então os livros e falo que são pequenos tesouros, guardados por toda a minha vida.
Hoje percebo que aquele contar histórias da minha avó, ajudou-me a trabalhar com as crianças com Necessidades Educativas Especiais, fico feliz ao ver a alegria deles ao ouvirem uma história, resgato a contar histórias que aprendi com a minha avó.

É saber que posso trabalhar com a transformação e a formação do sujeito, ser pessoa... E Cidadão.

Vitória16 de agosto de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Relatório – Encontro 12 – TP2 – Vila Valério – ES
Gestar II – Língua Portuguesa
Formadora: Myrcea Lourenzon Colombi
01/12/2009, às 12h – Encontro 12 (Unidades 07 e 08)

Iniciamos o encontro com a apreciação da mensagem “A Vida”, que além de ter um texto muito bonito, trás imagens muito interessantes.
Após, então, comentamos do estudo feito em casa, ao qual, pelo que foi comentado, foi muito proveitoso, pois qualquer tema relacionado a arte é muito bom. A maioria dos cursistas participou da socialização do conteúdo e, após a socialização, os professores trocaram idéias de como desenvolver o tema em sala aproveitando as propostas de atividades do Gestar.
Logo após apresentei aos cursistas os slides com algumas obras de arte, Intitulado como Klassika, e após a apreciação das imagens solicitei aos professores desenvolvessem uma sequência didática em que se evidenciassem as diversas manifestações artísticas.
Fizemos, também, uma pequena listagem de alguns exemplos de metáforas usadas no cotidiano
Por fim, os professores desenvolveram a atividade proposta pela oficina, que foi desenvolver uma série de estudos e questões sobre uma charge de Quino.
Foi uma oficina muito produtiva, com atividades que os cursistas gostaram de desenvolver. Após a realização das atividades propostas pela oficina os professores aproveitaram para concluir e ordenar algumas pendências em seus portifólios.
Relatório – Encontro 11 – TP2 – Vila Valério – ES
Gestar II – Língua Portuguesa
Formadora: Myrcea Lourenzon Colombi
24/11/2009, às 12h – Encontro 11 (Unidades 05 e 06)

Iniciamos o encontro com a apreciação da mensagem: “O Grande Professor”, onde discutimos um pouco sobre o nosso papel em sala de aula. Logo após, fizemos a retomada dos conteúdos e discutimos o que foi estudado em casa. Gramática é um tema muito abrangente e que gera muitas opiniões, mas existe uma questão em comum para todos os professores, “como trabalhá-la de uma maneira diferenciada e significativa para nossos alunos”. A partir de então, os professores cursistas também já expuseram o que acharam difícil e fácil no desenvolvimento das atividades propostas aos alunos.
Em grupo os professores desenvolveram um planejamento diferenciado de como trabalhar verbos. Em seguida, assistimos ao vídeo “O Assalto”, e como era de se esperar, os professores adoraram, e adotaram como um recurso de exemplificação do uso da gramática no nosso dia a dia, tanto na fala, como na escrita.
Por fim os professores fizeram a atividade proposta pela oficina, mas, no entanto se depararam com a expressão “cova do vento”, até então desconhecida por todos, mas que após pesquisarem, acharam de grande validez para a atividade de análise linguística.
Os cursistas avaliaram a oficina satisfatória e produtiva, pois tudo o que foi comentado, debatido e estudado é de interesse de todo professor de Língua Portuguesa.

domingo, 13 de dezembro de 2009

UM ESTALO DENTRO DO PEITO - MEMORIAL DE LEITURA - Elisa Alves


“A escrita é um mundo emaranhado
de cipós, sílabas, madressilvas, cores e palavras
- limiar de entrada de ancestral caverna
que é o útero do mundo e dele vou nascer.”
Clarice Lispector
“Está uma tarde fria. Está uma tarde feia. Chove tanto lá fora! Susana está em seu quarto. Os pingos da chuva batem na vidraça. Plic, plic, plic.”

Foi este o primeiro texto que li. Ele era o início da primeira história da cartilha que as professoras da escolinha seguiam. Nós líamos em coro, marcando o ritmo, como se cantássemos (as sílabas grifadas representam as mais fortes, na nossa cantiga). Era uma escolinha que funcionava na casa de duas moças. Uma terceira se juntava a elas na hora da aula e estava formado o trio que tinha a missão de ensinar a ler aquele grupo de crianças, cujos pais achavam que sete anos era uma idade um pouco tardia para começar. E minha mãe estava entre eles!

Mamãe não conseguiu vencer a escola. Não resistiu à palmatória, associada à necessidade de trabalhar desde criança. Assim, para ela, chegar ao fim do tempo destinado à escola era a vitória mais significativa da vida, e ela ardentemente desejava isso para mim!

Na escolinha, então, as professoras me ensinaram a ler palavras nos livros. E os colegas – ali mesmo – me ensinaram a ler a cor da pele e a discriminação. Uma das lições me deu muito prazer. A outra me fez sofrer.

De qualquer forma, foi uma bênção ter aprendido. Eu era filha única, e minha mãe saía para trabalhar em casas de família, passando dias fora e me deixando com algumas babás, que nunca duravam muito tempo. Nós morávamos no Gama (cidade periférica do Distrito Federal) e mamãe trabalhava em Brasília (Plano Piloto, para os íntimos). Eu era calada, quieta, tímida, não me dava bem com as babás que, por sua vez, não faziam nenhum esforço para me cativar. Não que brigássemos. Apenas minha mãe ficava insatisfeita com o serviço e dispensava uma após a outra.

Devido a isso, foram muitos os períodos em que fiquei sozinha, mesmo. Já matriculada no ensino fundamental de uma escola pública bem perto de nossa casa, eu ia para a aula à tarde e não gostava de televisão. Mas adorava livros! Nessa época, minha mãe comprou, de um ambulante, uma coleção de histórias clássicas infantis. Eram quatro livros pequenos, mas volumosos, guardados em uma casinha de madeira. Era lindo! E mais lindo ainda era quando, em alguma manhã ensolarada de domingo, mamãe se sentava comigo na porta da cozinha e lia para mim. Essa é uma das lembranças mais luminosas de minha vida. E não tenho certeza se a luz e o calor que ainda me são tão vivos vinham do sol incidindo sobre nós ou se do raro gesto de carinho e cuidado.

Houve um outro, uns três anos depois. Era raro que saíssemos juntas, mas naquela tarde, num dia de semana, eu estava com mamãe andando pelo Setor Comercial Sul de Brasília – mais especificamente no Conic. De repente, quando passávamos em frente a uma livraria, ela decidiu entrar e me mandou escolher um livro! É impossível explicar, em poucas palavras, o que houve comigo. Até hoje sinto o mesmo deslumbramento quando entro em qualquer livraria. Eram tantos livros ao meu redor... Parecia um castelo encantado, com peças mágicas espalhadas pelas paredes, cada qual com mundo dentro de si. E eu tinha que escolher uma! Tomada de desejo e insegurança, e com medo de aborrecer mamãe com uma possível demora, li alguns títulos e escolhi: “Manu, a menina que sabia ouvir”, de Michael Ende. Escolha acertadíssima! Uma mensagem de preservação da vida e das relações pessoais disfarçada numa intensa aventura de ficção. Tempos depois, já adulta, descobri uma outra tradução do livro – mais densa, por sinal – intitulada “Momo e o senhor do tempo”. Li também e renovei minhas impressões.

Voltando à minha infância, esses eram os meus livros. Havia outros, que eu nem sei por que tínhamos, ou de onde vieram, mas que não eram infantis. De vez em quando mamãe trazia alguma revista da casa onde trabalhava. A escola fazia empréstimos com muitas restrições, mas eu logo descobri a biblioteca pública. Foi uma riqueza! Semana após semana lá estava eu, renovando ou substituindo os empréstimos.

Assim, na solidão de minha infância, os livros me fizeram companhia, e eu passei a considerar que ler era a coisa mais gostosa do mundo! Meu coração estalava de prazer.

Isso permaneceu assim pela infância e adolescência. Um dia – eu com doze ou treze anos – mamãe entendeu que eu deveria ler mais! Retirou da prateleira A Escrava Isaura e O Coronel e o Lobisomem. Só então eu percebi que ela não sabia que eu lia, não sabia do que eu gostava. Mas eu era calada. Não discuti. Peguei os livros e tentei lê-los. Fui avançando linha após linha sem entusiasmo, e era como se não os estivesse lendo. Tive, assim, a primeira lição de que nem todo livro é legal. Anos mais tarde voltei a esses livros e os devorei. Era mais uma prova dos efeitos do tempo sobre a vida da gente.

Na escola, não me lembro de nenhum trabalho com livros no Ensino Fundamental. Mas eu nem pensava nisso, não sabia que deveria haver. Ninguém falava em leitura, e eu nem tinha com quem dividir meu entusiasmo com os livros.

Mas no Ensino Médio, fazendo o Curso Normal, uma professora nos mandou ler Jorge Amado. Não me lembro do trabalho que fizemos com o livro, mas eu me apaixonei. Foi o livro Mar Morto – uma coisa deliciosa! Depois fui procurando as outras obras dele e lendo por puro prazer.

Eu era militante da Pastoral da Juventude – um movimento da Igreja Católica, adepto da Teologia da Libertação, que defendia a “opção preferencial pelos pobres e pelos jovens”. Para mim, ser professora era um modo de fazer bem às pessoas. Era minha militância.

Enquanto estudante, eu adorava Matemática, até conhecer a Física no 1º ano do Curso Normal. Fiquei dividida. As duas eram apaixonantes, mas eu precisava escolher uma para estudar na faculdade... E então, contra todas as expectativas geradas por esse triângulo amoroso, quando terminei o Ensino Médio, prestei vestibular para o curso de Letras!

Já me explico: foi o bichinho da pesquisa que me picou. Eu queria compreender um problema que identifiquei durante o Curso Normal. É que, na nossa turma, quase ninguém gostava de escrever as redações que nossa professora exigia. Os textos valiam nota e muitas colegas chegavam, no dia da entrega, sem ter conseguido escrever nada. Um dia uma delas me pediu para fazer um texto, ali na sala, pra ela. Não me recusei e isso acabou virando hábito: eu escrevia diversas redações a cada data marcada, para várias colegas em apuros, sem perceber que eu mais as atrapalhava que ajudava – se levarmos em consideração que elas receberam seus diplomas de professoras. De qualquer forma, nossa professora é quem deveria perceber as limitações de sua estratégia de ensino de redação, mas essa é uma outra história. O fato é que, ao iniciar o tempo do estágio, pude perceber que dificuldades na escrita relacionadas ao desejo e às ideias que devem ser apresentadas não são inerentes às pessoas. As crianças das turmas em que atuei adoravam inventar histórias. Se tinham que escrever, escreviam felizes, ansiosas para mostrar o que fizeram. Mas então, por que as moças quase professoras sofriam tanto para escrever? Que incidente no percurso fez com que elas afirmassem tão categoricamente que não sabiam escrever? Em que momento da vida escolar ocorre esse estrangulamento do desejo de registrar o que se pensa? Era isso que eu queria descobrir e que me levou ao curso de Letras. Mais que descobrir uma explicação para o problema, eu queria contribuir para sua solução. Como um personagem de Isabel Allende, eu sofria de “juventude em excesso. Mas todo mundo sara disso”.

Estudar Letras foi delicioso, é claro: tive muito o que ler. Consegui levantar algumas respostas para o problema que me levou até ali, e até algumas pistas sobre a solução. E mergulhei de vez no mundo dos livros. Descobri a vertigem de Clarice Lispector e Autran Dourado. Enxerguei melhor Machado de Assis. Embriaguei-me com Lygia Fagundes Telles. Deixei-me levar por Cecília Meireles, Mário Quintana e Fernando Pessoa. Perdi-me nas veredas de João Guimarães Rosa. Encontrei novos caminhos em Graciliano Ramos.

Foi um tempo de intensa paixão!

Tão intensa que eu quase me esqueci de que havia vida além dos livros. Eu começava a preferir a companhia dos livros à das pessoas!... Mas fui salva em tempo. Cheguei bem na beira do abismo, e um amigo me puxou de volta, com meu coração estalando.

Terminei o curso de Letras, comecei a lecionar Língua Portuguesa, e continuei lendo – tentando arduamente manter o equilíbrio entre essa paixão e a vida real. A leitura interfere em minha prática pedagógica, em meu jeito de amar, de falar, de dançar, de cantar. Vejo o mundo sob a lente das letras, como se as páginas de tudo o que li e leio fossem de celofane, e se estendessem sobre meus olhos. Gostei de absolutamente quase tudo o que li. Gosto de românticos, realistas, parnasianos e futuristas. Gosto de Paulo Coelho, Paulo Leminski, Paulo Freire. Gosto tanto de Vygotsky que seria amante dele... Gosto de Fernand Braudel, Moacir Gadotti, Pedro Demo, Edgar Morin, Celso Pedro Luft, Wanderlei Geraldi, Sírio Possenti, Gustavo Bernardo, Marcos Bagno, Magda Soares, Marisa Lajolo. Gosto de Ziraldo, Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, Ruth Rocha.

Há uma leitura específica para cada dia, para cada maneira de sentir e de estar. Assim, escolho livros de acordo com o que necessito: livros para descansar – como Paulo Coelho; livros para acordar minha alma e me ver cercada e invadida por um fogo intenso – como Clarice Lispector; livros para mergulhar numa quietude densa e úmida – como Cecília Meireles; livros para quando estou inquieta e divertida – como Paulo Leminski; livros pelo prazer do conhecimento – como Bourdieu. Qualquer que seja minha escolha, meu coração ainda estala.

Muito ao contrário do que li, aos seis anos, na minha cartilha, para mim, não há tardes frias e feias. Na verdade, se agora moro no interior, sempre considero a chuva uma bênção. E os livros me dão luz e calor. Como Odara e Bruno, meus filhos, a leitura é parte de mim, inerente. Porém, diferentemente de para com eles, não é uma relação de amor. É como a relação que tenho com minha voz, com minha cor, com meu corpo. É o que eu sou.

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